Abrati

O transporte rodoviário de passageiros em 2026: desafios, respostas e o papel da Abrati

Em conversa exclusiva, o presidente da Abrati faz um diagnóstico do setor para 2026, fala sobre prioridades estratégicas, inovação, regulação e a importância da mobilização organizada da indústria.

Paulo Alencar Porto Lima é advogado e está à frente da entidade desde junho de 2022. Sua gestão tem sido marcada pela defesa institucional do setor rodoviário regular, com foco em segurança jurídica, modernização regulatória e valorização do modal.

1) Como o Sr. avalia o momento atual do transporte rodoviário de passageiros no Brasil neste início de 2026?

Vejo um setor consistente e resistente, que vem se adaptando a desafios imensos, desde questões regulatórias até mudanças culturais e sociais. Os passageiros estão mais exigentes, embora sempre muito sensíveis a preço. Estamos vivendo um momento de transição regulatória e de maturidade competitiva. A concorrência, tanto regular quanto irregular, pressiona a necessidade de previsibilidade, eficiência operacional, inovação e fiscalização.

2) Quais são hoje os principais desafios enfrentados pelas empresas do setor – regulatórios, econômicos e operacionais?

Eu resumiria em três grandes blocos. No campo regulatório e concorrencial, o principal ponto é a segurança jurídica para o operador regular e a isonomia de regras, sobretudo frente à informalidade, à clandestinidade e a modelos que tentam contornar o regime autorizado. Esse é um ponto recorrente do debate setorial. No aspecto econômico, enfrentamos juros elevados, custo de capital e pressão de insumos como combustível, pneus, peças, seguro, além de taxas e impostos que oneram um serviço cuja tarifa tem limites de elasticidade para o bolso do consumidor. Já no plano operacional, lidamos com infraestrutura rodoviária desigual, segurança viária, disponibilidade de mão de obra qualificada e necessidade de padronização de qualidade em uma frota cada vez mais ecológica, porque a sustentabilidade precisa caminhar de mãos dadas com a performance do equipamento.

3) A Abrati tem reforçado a importância da modernização do ambiente regulatório. Quais avanços são prioritários neste momento?

Em nosso setor, a modernização precisa estar acompanhada de previsibilidade, transparência e foco no passageiro, sem perder a lógica de equilíbrio econômico-operacional do sistema. Neste momento, considero prioritária a consolidação e aplicação uniforme do novo marco regulatório do TRIP, com regras claras de sanções, medidas administrativas e proteção ao usuário, sem interferência judicial na atividade da ANTT. No entanto, é fundamental a fiscalização efetiva contra operações irregulares, à exemplo do clandestino e dos “atalhos” regulatórios, porque isso afeta segurança, arrecadação e a concorrência leal. Além disso, acredito que precisamos avançar em digitalização e dados: processos mais ágeis, integração de informações e uso inteligente de bases de monitoramento para orientar política pública e controle.

4) O custo da operação segue sendo uma preocupação. Que fatores mais pressionam o setor hoje e que caminhos podem ajudar a equilibrar essa conta?

Os maiores vetores de pressão hoje são combustível, manutenção da frota, custo financeiro, principalmente para renovação e modernização. Também vale destacar, é claro, a qualificação da mão de obra, que anda escassa e requer muita capacitação. Em relação aos caminhos posso destacar a busca por eficiência operacional, com uso de telemetria, roteirização, manutenção preditiva e redução de ociosidade. Mas isso também passa por um ambiente jurídico estável, que incentive investimento de longo prazo, e por financiamento adequado para uma frota mais eficiente e segura, inclusive dentro da agenda de descarbonização, com linhas que façam sentido para o ciclo de vida do ônibus. O combate à informalidade é essencial nesse contexto já que ela distorce preços e puxa o mercado para baixo com risco mais alto. E precisamos investir na formação de profissionais, garantindo a continuidade do futuro do transporte.

5) A inovação tem ganhado espaço. Como o senhor vê a incorporação de novas tecnologias na operação e na relação com os passageiros?

Eu vejo como extremamente positiva desde que venha com responsabilidade, não acrescente custos e tenha foco em segurança. Hoje, a tecnologia melhora a segurança, com monitoramento, telemetria, apoio à condução e gestão de fadiga; melhora a confiabilidade com pontualidade, comunicação com o passageiro e gestão de incidentes e melhora a experiência com Wi-Fi, entretenimento, assentos melhores, informação em tempo real e canais digitais. E há um ponto central importante: inovação não é só aplicativo. É processo, é governança, é padrão operacional.

6) A conectividade e a digitalização mudaram o perfil do passageiro. Como o setor tem se adaptado?

O passageiro virou “multicanal”: ele pesquisa, compara, compra no digital e cobra atendimento rápido como padrão. O setor tem respondido com venda digital robusta, considerando as opções de compra pelo website e aplicativos, além do autoatendimento e da integração com pontos físicos. Também destaco, nesse cenário, a evolução da comunicação em tempo real sobre informações de embarque, atrasos, remarcação e pós-venda. Tudo isso alinhado à regras mais claras ao consumidor para reduzir atrito e judicialização, alinhadas ao marco regulatório que reforça direitos e previsibilidade.

7) O transporte rodoviário é fundamental para integrar o país e atender cidades fora dos grandes centros. Como a Abrati reforça esse papel?

A associação tem reforçado esse papel de duas formas: narrativa e evidência. Na narrativa, lembrando que o ônibus é o modal que conecta o Brasil real, chegando onde outros modais não chegam com a mesma capilaridade. Na evidência, defendendo políticas que sustentem rede, frequência, segurança e qualidade, sem destruir o equilíbrio econômico do sistema. Além disso, atuamos para que a regulação e a fiscalização protejam quem de fato entrega serviço público regular e contínuo, especialmente em rotas essenciais para o interior.

8) Por que a união das empresas é ainda mais importante neste momento?

Porque o desafio atual é sistêmico. Uma situação que envolve regulação, concorrência, infraestrutura, custo Brasil e mudança de comportamento do consumidor. Se cada empresa tratar isso isoladamente, perde força. A união dá consistência técnica para dialogar com o poder público e o regulador, capacidade de construir consenso em pautas estruturantes e força institucional para defender a isonomia e o passageiro.

9) Olhando para 2026, quais são as prioridades da Abrati junto ao poder público?

Em 2026, eu colocaria como prioridades a implementação qualificada do marco regulatório, com segurança jurídica e foco no passageiro. Reitero a importância da isonomia competitiva e o combate ao transporte clandestino, com fiscalização e responsabilização efetivas, inclusive tributária e trabalhista. Em termos de infraestrutura e segurança viária, o foco é fomentar políticas e investimentos que reduzam risco e aumentem confiabilidade. Não podemos esquecer ainda de manter uma agenda de modernização e digitalização para reduzir burocracia, melhorar dados e elevar eficiência. E, claro, o viés da Agenda ESG, trazendo mais sustentabilidade com viabilidade econômica, incluindo transição energética, mas com instrumentos realistas de financiamento.

10) Que mensagem o senhor gostaria de deixar para os empresários do setor neste novo ano?

Minha mensagem para este ano é direta. É tempo de consolidar confiança. A confiança do passageiro, com segurança, conforto, informação e respeito. A confiança do investidor, com previsibilidade regulatória e a confiança entre nós, empresários, de que a atuação coletiva é o caminho para atravessar mudanças com protagonismo. O Brasil precisa do transporte rodoviário de passageiros e o nosso compromisso é entregar um serviço cada vez mais moderno, seguro e acessível.

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