Abrati

O futuro do transporte passa pelas pessoas

A advogada Nicole Goulart é Diretora Executiva Nacional do SEST SENAT e Mestre em Direito e Políticas Públicas com especializações por Stanford e INSEAD. Preside a Comissão Especial de Transporte e Mobilidade Urbana da OAB. Foi assessora sindical na CNT e chefe do departamento jurídico da própria instituição que hoje lidera. Sob sua gestão, o SEST SENAT modernizou processos corporativos e expandiu sua rede de unidades operacionais por todo o país.

1. O SEST SENAT participou de mais uma edição da LAT.BUS. Na sua avaliação, quais foram os principais destaques da presença da instituição na feira e quais resultados essa participação trouxe ao longo das diversas edições? Há algum momento ou conquista que gostaria de destacar em especial?

A LAT.BUS é um espaço estratégico para o SEST SENAT porque nos aproxima diretamente das empresas, fabricantes, fornecedores e trabalhadores que constroem o futuro do transporte rodoviário de passageiros. Nesta edição, tivemos mais de 2 mil registros de participação no estande do Sistema Transporte, além de outros visitantes, o que demonstra o interesse pelas nossas soluções.

Também tivemos a presença de representantes de empresas associadas à ABRATI, como os grupos Águia Branca, JCA, Comporte e Guanabara, reforçando a parceria com o segmento. Para nós, essa proximidade é fundamental para entender as demandas do setor e transformá-las em ações concretas.

A LAT.BUS também nos permite enxergar de perto para onde o setor está caminhando. Nesta edição, vimos com muita clareza a evolução das tecnologias embarcadas, a modernização das frotas, a eletrificação e a digitalização. Para o SEST SENAT, isso tem uma consequência direta: cada inovação tecnológica traz novas competências que precisam ser desenvolvidas pelos profissionais.

Hoje, contamos com 176 Unidades Operacionais em todo o país, o que nos dá capilaridade para oferecer qualificação profissional, saúde, segurança e qualidade de vida. A LAT.BUS, portanto, é mais do que uma participação institucional: é uma oportunidade de ouvir o setor e preparar as pessoas para as transformações que estão chegando.

2. A LAT.BUS apresentou diversas inovações em veículos, tecnologia e segurança. Como o SEST SENAT acompanha essa evolução da indústria do transporte rodoviário de passageiros e se prepara para atender às novas demandas do setor, que está em constante transformação?

A evolução tecnológica já está mudando o trabalho no transporte de passageiros, com veículos mais modernos, eletrificação, sistemas embarcados, telemetria e uso crescente de dados. Isso cria novas demandas de qualificação para motoristas, profissionais de manutenção, operação e gestão.

O SEST SENAT mantém diálogo permanente com empresas e fabricantes para identificar essas necessidades e atualizar seus programas. Na própria LAT.BUS, mostramos uma aplicação concreta dessa estratégia, com óculos de realidade virtual para simulação de situações de condução, aproximando a tecnologia do processo de formação.

Também buscamos referências fora do Brasil, por meio de missões internacionais e outras iniciativas de prospecção. A ideia é conhecer antecipadamente tecnologias e modelos de formação que estão sendo utilizados em outros mercados.

3. O setor vive uma importante janela de oportunidades para novos motoristas. Qual é a contribuição do SEST SENAT para a formação desses profissionais?

O SEST SENAT tem atuado de forma concreta para ampliar a oferta de motoristas qualificados. Criamos um verdadeiro ecossistema de formação, que começa com o ingresso de novos profissionais e continua ao longo de toda a carreira.

O Mais Motoristas, por exemplo, amplia o acesso à profissão, apoiando a mudança da categoria da CNH para C, D e E; além de oferecer a capacitação profissional. Desde 2023, já habilitou mais de 17 mil pessoas. Em 2026, foram mais de 2 mil habilitações e a nova edição registrou 138.586 inscritos, dos quais 26.309 são mulheres.

A Escola de Motoristas Profissionais prepara condutores para o exercício da atividade, com capacitação alinhada às necessidades do mercado e às competências exigidas pelas empresas. O programa passou de 7.035 motoristas capacitados em 2024 para 9.797 em 2025, aumento de 39,2%. Em 2026, até julho, já foram mais de 5,7 mil matrículas.

O Motorista Série A reconhece e valoriza motoristas de excelência, combinando desenvolvimento profissional, cuidados com a saúde e acompanhamento do desempenho por telemetria. Nesta edição, teve mais de 8 mil inscritos e impactou 2,7 mil empresas.

Esses números mostram que não estamos apenas falando sobre a necessidade de qualificar motoristas. Estamos criando oportunidades concretas para que as pessoas ingressem na profissão, se desenvolvam e permaneçam nela.

4. Além da qualificação profissional, o SEST SENAT desenvolve um amplo trabalho voltado à saúde e ao bem-estar dos trabalhadores do transporte. Como essas iniciativas impactam a segurança das operações e a competitividade das empresas? Há algum programa ou projeto que mereça maior conhecimento e adesão por parte do segmento de passageiros?

Saúde e qualificação precisam caminhar juntas, especialmente no transporte de passageiros, em que o profissional tem diariamente a responsabilidade de transportar vidas.

Em 2025, o SEST SENAT realizou mais de 11,9 milhões de atendimentos em saúde e qualidade de vida, incluindo odontologia, fisioterapia, psicologia, nutrição e medicina, além de ações de prevenção. São cuidados que contribuem para a segurança, a produtividade e a permanência dos profissionais na atividade.

O Motorista Série A é um bom exemplo dessa visão integrada, porque combina qualificação, avaliação, telemetria e cuidados com a saúde. É esse modelo que queremos fortalecer: qualificar, cuidar e valorizar o trabalhador, porque isso também significa investir na segurança e na competitividade das empresas.

5. O transporte rodoviário de passageiros passa por transformações que envolvem desafios regulatórios, tecnológicos e de mão de obra. Quais competências o SEST SENAT considera essenciais para os profissionais que atuarão no setor nos próximos anos?

O profissional do futuro precisará combinar competência técnica, domínio de tecnologia e habilidades comportamentais. Para o motorista, isso significa, além de condução segura e conhecimento da legislação, saber lidar com sistemas embarcados, telemetria e novas tecnologias veiculares.

No transporte de passageiros, também são fundamentais comunicação, empatia, equilíbrio emocional e capacidade de adaptação, porque o motorista é parte importante da experiência do usuário.

E essa transformação envolve toda a operação. O SEST SENAT oferece cursos presenciais e a distância para motoristas e profissionais de manutenção, gestão, logística, atendimento, segurança e operação. Nosso objetivo é fazer com que a qualificação antecipe as mudanças, e não apenas responda a elas.

6. Quando o assunto é sustentabilidade e descarbonização, o transporte rodoviário de passageiros ainda enfrenta desafios, mas também convive com um certo desconhecimento sobre sua contribuição para a mobilidade sustentável. Nesse contexto, poderia falar sobre iniciativas como o Programa Despoluir?

O transporte coletivo é uma solução importante para a mobilidade sustentável porque permite transportar mais pessoas utilizando menos veículos individuais. Mas também precisamos tornar as operações cada vez mais eficientes e menos poluentes.

O Programa Despoluir contribui diretamente para isso. Em 2025, foram realizadas mais de 434 mil avaliações ambientais veiculares, além de orientações técnicas e ações de educação ambiental. É uma atuação prática para ajudar as empresas a reduzir emissões e melhorar a eficiência das frotas.

Ao mesmo tempo, a modernização do transporte exige investimentos. Durante a LAT.BUS, a CNT apontou a necessidade de R$ 518,4 bilhões para 328 projetos de mobilidade urbana. Esse cenário mostra que infraestrutura, tecnologia e qualificação profissional precisam caminhar juntas. Não basta ter veículos mais modernos: precisamos de profissionais preparados para operar essa nova realidade.

7. Pensando em sua trajetória profissional e na sua reconhecida contribuição ao Sistema Transporte, que mensagem gostaria de deixar para líderes, profissionais do transporte rodoviário de passageiros e gestores públicos sobre o futuro desse modal no Brasil?

O futuro do transporte de passageiros precisa ser construído a partir de três elementos que não podem caminhar separados: infraestrutura, tecnologia e equipes preparadas.

É preciso investir em sistemas mais eficientes, veículos modernos e novas tecnologias, mas nenhum desses avanços se sustenta sem profissionais preparados. Por isso, aos empresários, deixo uma mensagem: façam da qualificação uma estratégia do negócio. Aos trabalhadores, digo que a qualificação é uma ferramenta de valorização e abre novas oportunidades em um setor que está se transformando.

O SEST SENAT está preparado para ser parceiro desse processo. Nossa missão é qualificar, cuidar e valorizar os profissionais do transporte, porque modernizar o transporte também significa desenvolver as pessoas que fazem esse transporte acontecer.

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